Ken Livingstone e o poder das cidades

O primeiro prefeito de Londres conta como as cidades são fundamentais na resolução de problemas globais

28/05/2015

Ken Livingstone foi prefeito de Londres entre 2000 e 2008 e colocou em prática uma série de inovações na cidade como a ampliação de espaços públicos para uso de pedestres, a melhoria do serviço de transporte público e corredores prioritários aos ônibus. Dentre suas iniciativas mais conhecidas, uma ganhou maior destaque por ter transformado a mobilidade de Londres e influenciado cidades em todo o mundo: a taxação de congestionamento. 

Foto: Overseas Development Institute/Flickr) Foto: Overseas Development Institute/Flickr) A taxação de congestionamento (congestion charge, em inglês) é um conceito que se refere à cobrança de taxas dos usuários para acessar determinada zona, na maioria das vezes, o centro das cidades, em certos horários. Este termo, popularmente conhecido por pedágio urbano, procura equilibrar o excesso de automóveis a esses locais nos horários de pico, quando a oferta disponível deste “bem público” (espaço) é insuficiente para satisfazer essa demanda (desejo de se deslocar ao centro de carro).

Essa medida baseou-se em uma experiência de Cingapura, que introduziu o pedágio urbano em 1975. Ao contrário da pioneira cidade asiática, a taxação foi o resultado de uma votação democrática,  submetida à detalhada preparação e consulta pública. A área de abrangência da taxação de congestionamento é uma das maiores do mundo. Esta política foi fundamental para reduzir o uso do automóvel e promover o transporte sustentável em Londres, diminuiu em 30% o número de carros no centro e incentivou um aumento no uso de meios de transporte sustentáveis​​, como ônibus, metrô, bicicleta e a caminhada.  Iniciativas parecidas foram replicadas em Estocolmo, Copenhague e Milão. 

Ken Livingstone irá participar da Cúpula de Prefeitos e do Congresso Internacional Cidades & Transportes, eventos promovidos pelo WRI Brasil |EMBARQ Brasil, que acontecerão de 9 a11 de setembro no Rio de Janeiro. Os eventos fazem parte das comemorações de aniversário dos 10 anos da EMBARQ Brasil. Para mais informações e para realizar sua inscrição acesse cidadesetransportes.org.

Confira a entrevista exclusiva de Ken Livingstone ao WRI Brasil | EMBARQ Brasil:

Quais são os maiores desafios que as cidades enfrentam a fim de melhorar a equidade e a qualidade de vida?

Os maiores desafios são o rápido crescimento das cidades em um momento de aumento da poluição e das mudanças climáticas. Isso requer um plano estratégico de 20-30 anos, que reúne empresas, comunidades locais e os trabalhadores. 

Como as cidades podem se tornar protagonistas na arena política e serem bem sucedidas para implementar inovações e novas ideias de gestão? Qual é o papel dos líderes e das cidades na agenda econômica e de desenvolvimento internacional?

Em todo o mundo, frequentemente, são as cidades que iniciam a mudança antes dos governos nacionais, principalmente nos países com forte presença do governo regional como a Alemanha e os EUA. O regime de taxação de congestionamento de Cingapura (usado por Londres como modelo) está lentamente se espalhando ao redor do mundo à medida que as pessoas percebem que funciona. As mudanças surpreendentes, implementadas pelo governador da Califórnia, Jerry Brown, estão definindo padrões mais altos no combate às mudanças climáticas.

O que as cidades podem fazer para combater as mudanças climáticas?

As cidades são a resposta para combater as mudanças climáticas. A concentração de milhões de pessoas permite a eficiência do transporte público em detrimento dos veículos particulares e viabiliza o fornecimento de energia sustentável. Nos últimos 15 anos, Londres apresentou um aumento de 50% no uso de transporte coletivo, muitas vezes, nas áreas mais ricas da cidade. Nós estamos vivenciando um grande crescimento no uso do transporte coletivo.

O senhor foi capaz de reduzir o congestionamento em Londres, limitando o acesso de carros ao centro da cidade. Como lidou com taxação de congestionamento? Quais foram as lições aprendidas como prefeito?

Como a taxação de congestionamento vinha funcionando há décadas em Cingapura, fomos capazes de aprender com essa experiência e trabalhamos arduamente com o planejamento e a implementação da medida para assegurar que nada desse errado na data de início. O que eu aprendi como prefeito foi manter um controle firme da burocracia, a atenção aos detalhes e garantir que meus principais assessores acompanhem o desenvolvimento dos planos.

Quais são as ideias que sustentam a afirmação de que os prefeitos estão muito melhor colocados do que os governos nacionais para intervir com ações sobre os problemas do século 21?

Os governos nacionais e os parlamentares debatem as leis, mas prefeitos e governadores têm de lidar com os problemas do dia-a-dia na gestão das cidades. Muitas vezes, anos de debate são gastos até que uma política seja elaborada e implementada, enquanto que um prefeito que é incapaz de resolver o problema dos buracos de rua ou congestionamentos muito provavelmente não será reeleito. 

Neste sentido, quais são suas expectativas para a Cúpula de Prefeitos e para o Congresso Internacional Cidades & Transportes que serão realizados em setembro, no Rio?

Cidades de todo o mundo se reunirão no Rio para trocar ideias e experiências e dar um exemplo de liderança para seus governos nacionais. Ao longo das próximas décadas,  eu espero que haja uma mudança irreversível do poder dos governos nacionais para as cidades. 

Qual é a frase ou a ideia que gostaria de espalhar para o mundo?

Devolva o poder às suas cidades, se você quiser salvar o planeta. 

Participe do Congresso Internacional Cidades & Transportes, dias 10 e 11 de setembro, no Rio. Inscreva-se.

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