Tecnologia limpa não é para o futuro, mas para o presente

Painelistas discutem os entraves e oportunidades da tecnologia limpa na América Latina

11/09/2015

Para painelistas, tecnologia limpa já é uma realidade. (Foto: Luisa Chardon / WRI Brasil Cidades Sustentáveis) Para painelistas, tecnologia limpa já é uma realidade. (Foto: Luisa Chardon / WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Por que precisamos de tecnologia limpa no setor de transportes? A pergunta abriu o painel Transferência de Tecnologia Limpa na América Latina e Caribe, no último dia do Congresso Internacional Cidades & Transportes. E a resposta veio curta: "É muito básico. O setor de transportes é um dos maiores emissores de CO2 e de poluição, impactando a saúde dos nossos cidadãos. Além disso, ela é também uma oportunidade: pode aumentar empregos e dar apoio ao crescimento do PIB", resumiu o moderador da sessão, Benoit Lefevre, Diretor de Clima e Energia do WRI Ross Centro para Cidades Sustentáveis.

E não para por aí. Lefevre ressaltou que isso não é mais uma coisa para o futuro. É algo para o presente. "Temos cada vez mais investimentos na área. A tecnologia limpa já está acontecendo, não é ficção científica. Ela já existe e o mercado já está pronto", garantiu, mas com uma ressalva: "Mas isso não está acontecendo tão rápido na América Latina".

Ainda há obstáculos. E para superá-los, Dario Hidalgo, Diretor de Transporte Integrado do WRI Ross Centro para Cidades Sustentáveis, acredita que é preciso foco. "Devemos olhar localmente. Não existe resposta global. Sabemos que temos barreiras, e na América Latina temos barreiras muito específicas", disse.

Mas para Manuel Oliveira, Diretor Regional para América Latina da C40, o cenário na região está mudando aos poucos. "A questão do transporte é um tema crítico. Mas vamos nos unir para demonstrar que as cidades do mundo e da América Latina não estão condenadas a continuar sofrendo os efeitos dos combustíveis fósseis. Uma coisa que as cidades não querem é continuar os erros sucessivos que outras cometeram", declarou. "Existem recursos, existe tecnologia e existe decisão política para avançar de forma bem mais acelerada".

Algumas provas disso vêm do setor privado. É o caso da empresa Build Your Dream, que se tornou a maior fabricante de baterias do mundo, fornecendo o produto para ônibus elétricos. Eles apostaram no setor, e foram insistentes no Brasil. "Primeiro tivemos a briga de colocar o transporte público na agenda, pois a maior parte dos investimentos ia para infraestrututra de transportes individuais", recordou Adalberto Maluf, Diretor de Relações Governamentais e Marketing da BYD. Mas os avanços começaram a aparecer. "Para quem não sabe, na última quarta-feira foi aprovada a Proposta de Emenda Constitucional no Senado colocando o transporte público como serviço essencial, junto com saúde e educação. É um ganho muito grande".

Mas para Renato Boareto, Coordenador de Mobilidade Urbana do IEMA (Instituto de Energia e Meio Ambiente), muito mais precisa ser feito. "Não adianta melhorar a tecnologia do ônibus se ele fica preso no congestionamento. Temos que combinar desenvolvimento tecnológico com priorização do transporte público", defendeu. "O transporte público tem que ser visto como parte da solução dos problemas ambientais, e não como causa".

Um dos entraves para essas mudanças, porém, foi apontado por todos os participantes do painel: os custos. Em geral, nem governos tampouco empresas querem arcar com eles para possibilitar mudanças profundas. Mas Manuel Oliveira, do C40, diz que a conta está sendo feita de forma errada. "Se for feita uma análise de 12, 15 anos, os ônibus híbridos e elétricos são menos caros que os convencionais. Isso se somarmos os custos de saúde da população, por conta das emissões de poluentes. Mas as cidades da América Latina continuam não incluindo os mortos e doentes nesses custos".

Outro empecilho são as incertezas de se adotar uma tecnologia nova: "Tem uma coisa que empresário tem horror: risco. Enquanto não tiver risco pequeno para o empresário, que é quem bota dinheiro no negócio, a gente não vai andar com a velocidade que deve".

 Para mudar isso, é preciso que os governos incentivem esses mercados emergentes. "Existe a necessidade de consistência de políticas públicas para que o setor privado tenha menos medo e adote as tecnologias limpas",  apontou Erica Marcos, Coordenadora Global de Iniciativas de Carga Urbana do Smart Freight Centre. "Deve haver o reconhecimento das empresas que optam por energias limpas".

De qualquer forma, Erica diz que não dá para esperar esse movimento para começar a agir. Afinal, as mudanças climáticas já estão batendo à porta. Segundo ela, a iniciativa privada precisa sair na frente nessa discussão. "Quando uma empresa começa a fazer algo inovador, ela inspira os parceiros e concorrentes. É uma questão de liderança. A partir do momento que você se propõe a ser um front runner, você acaba reverberando suas boas práticas de cima para baixo".

Em última instância, se governos e empresas não agirem, é a própria sociedade civil que vai iniciar a transformação. "Todos vivemos com ar poluído, nos incomodamos com o ruído dos motores a combustão... Algumas tecnologias são tão poderosas que geram demanda por parte da população. As grandes operadoras terão que se adaptar", disse Maluf. E sentencia: "O poder público e as companhias podem fazer com que as mudanças aconteçam mais rápidas ou mais devagar. Mas que o futuro será das tecnologias limpas, isso eu tenho certeza".

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