Do transporte ao desenho urbano, como salvar vidas no trânsito?

Painel debateu medidas e iniciativas de segurança viária

11/09/2015

Claudia Adriazola e Dario Hidalgo, do WRI Ross Centro para Cidades Sustentáveis (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis) Claudia Adriazola e Dario Hidalgo, do WRI Ross Centro para Cidades Sustentáveis (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

A tempo para o Congresso Internacional Cidades & Transportes, a cidade de São Paulo aplica hoje a redução para 50 km/h em mais dez vias urbanas. A medida é parte de esforços da capital paulista para salvar vidas no trânsito.

Foi esse o foco do painel “Transporte Sustentável Salva Vidas”, que reuniu Claudia Adriazola, Diretora de Saúde e Segurança Viária, e Dario Hidalgo, Diretor de Transporte Integrado do WRI Ross Centro para Cidades SustentáveisTadeu Leite Duarte, Diretor de Planejamento da CET-SP, Dante Rosado, Coordenador da Iniciativa Bloomberg de Segurança Viária na cidade de Fortaleza, Hilda María Gomez, Especialista Senior em Segurança Viária da CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina), Marta Maria Alves da Silva, Coordenadora de Vigilância e Prevenção de Violências e Acidentes do Ministério da Saúde, Carlos Fernando Gallinal Cuenca, Chefe da Divisão de Temas Sociais do Ministério das Relações Exteriores, e Maurício Feijó, da LOGIT.

Para a Organização Mundial da Saúde, considera-se epidemia quando há ocorrência de 10 mortes a cada 100 mil habitantes. No trânsito, os dados da América do Sul são preocupantes: a taxa de mortes é de 15,84 por 100 mil. “Precisamos mudar a forma como nos deslocamos, e o assunto transcende a segurança viária. Por exemplo, para que a temperatura média do Planeta não suba 2 graus, é necessário reduzir 23% dos veículos por quilômetro nas vias”, afirmou Dario Hidalgo, moderador da sessão.

Com o bom exemplo de Bogotá, que passou de 1300 mortes em 1997 para 528 em 2009, o especialista abriu os debates com a questão: qual é a perspectiva global em termos de sustentabilidade e segurança viária?

Claudia Adriazola, do WRI Ross Centro para Cidades Sustentáveis, lembrou que 70% da população mundial vão viver em cidades e precisarão se mover dentro delas. “A segurança viária precisa ser encarada como um problema de sustentabilidade das nossas cidades”, analisou. Para ela, o desenvolvimento urbano é um fator imprescindível na questão por ser determinante à forma como se darão os deslocamentos. “São 1,3 milhões de mortes no trânsito, 50 milhões de feridos e 3 milhões de mortes por poluição a cada ano. É um problema global”. A especialista defendeu que o desenho urbano, bem como a redução de velocidades, são soluções importantes para melhorar o cenário.

Em analogia às ocorrências de trânsito, Hilda María Gomez, do CAF, contou a história de um sapo. “Coloque-o em água quente, e ele pulará. Coloque-o em água fria no fogo, ele permanecerá até ser cozido. Não nos damos conta da quantidade de mortos em nossas vias. É uma consequência inevitável”, disse. Um dos principais desafios, para ela, são as vias urbanas, onde há a maioria das ocorrências, especialmente entre jovens do sexo masculino. Sobre o papel dos bancos de desenvolvimento, ela contou sobre acordo para aprovar projetos que contenham a segurança viária. “Não se pode financiar um projeto de transporte que não seja seguro. Temos de fazer auditorias em sistemas BRT e incorporar elementos para salvar vidas”.

O Ministério da Saúde, representado por Marta Alves da Silva, reforçou a visão de cooperação intersetorial para a atuação no problema. “Existem iniciativas do Governo Federal como o Vida no Trânsito e o Rodovida são de grande valia, mas ainda não suficientes.  A fim de enfrentar a questão, é preciso trabalhar para além dos fatores de risco, com fatores associados. A causa da causa. Se nossa missão é cuidar e salvar vidas, temos que avançar nos desafios da promoção da saúde. É um problema, felizmente, passível de prevenção”, defendeu.

Carlos Cuenca, do Ministério de Relações Exteriores, lembrou que em novembro deste ano acontecerá a segunda Conferência Global sobre Segurança no Trânsito, com apoio das Nações Unidas, organizado pelo Governo Federal em parceria com as Nações Unidas. Segundo ele, o encontro trará questões essenciais ao tema, como a Década de Ação pela Segurança Viária que está na metade e ainda requer esforços. “Um dos marcos será Agenda 2030 em desenvolvimento sustentável. Ela aprovará duas metas, uma sobre transporte seguro, outra, transporte sustentável”.

Cidades brasileiras debruçadas em salvar vidas

Não é à toa que Fortaleza está entre as dez cidades da Iniciativa Bloomberg para Segurança Viária. As 25 mortes a cada 100 mil habitantes são preocupantes e representam um custo anual de 250 milhões de reais numa cidade pobre. “Salvar vidas deve ser um atributo do transporte sustentável; se ele não salvar vidas, não será considerado sustentável”, ponderou Dante Rosado, que coordena o projeto na cidade. Ele defendeu que, se não houver mudanças no ambiente viário, não haverá bons resultados.

Também parte da iniciativa da Bloomberg, a cidade de São Paulo vem trabalhando para tornar-se mais humana, segura e amigável ao transporte sustentável. “Como tratar uma cidade à beira do colapso? A primeira coisa foi rever o desenho urbano, pois a cidade foi moldada aos carros”, disse, contando uma novidade que foi aplaudia por todos os presentes na sala. “Hoje, dez vias ganharam limites de velocidade de 50 km/h. A segurança viária é um problema crônico, só é resolvido quando reorganizados e melhoramos as políticas e o ambiente viário”.

Feijó, da LOGIT, lembrou que intervenções no ambiente viário são parte da solução. “Análises que realizamos em vias rurais e urbanas em torno de pequenos núcleos de urbanização em Florianópolis anunciaram a necessidade de intervirmos na sua geometria, pois eram incompatíveis com a urbanização ao seu redor”, contou. Para ele, mobilidade é uma política de urbanismo, por isso não é um plano de transporte, mas uma relação deslocamentos com o meio urbano. “Temos de alterar as políticas de ocupação do uso do solo das cidades brasileiras. É um desafio e tanto”, concluiu.

Crenças a parte, os dados refletem a urgência em agir. Em todo o mundo, 1,3 milhão de pessoas perdem a vida no trânsito – é como se oito aviões Boeing 747 despencassem a cada dia. Levando em consideração que mais da metade da população mundial vive em áreas urbanas e, no Brasil, o índice é de 85%, o papel das cidades é claro. É preciso criar políticas e mecanismos de segurança viária como infraestrutura para o transporte sustentável, normas de redução de velocidades, fiscalização, educação.

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