Dados abertos geram cidades colaborativas

A abertura de informações permite um modelo em que os cidadãos tornam-se agentes ativos na gestão pública.

10/09/2015

Os participantes do debate sobre dados abertos e transparência (Foto: Benoit Colin/ WRI Brasil Cidades Sustentáveis) Os participantes do debate sobre dados abertos e transparência (Foto: Benoit Colin/ WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

No ano de 2013, a prefeitura de São Paulo arriscou uma iniciativa inédita na América Latina: abriu os dados de GPS de 100% da frota de ônibus do município. Não demorou três meses para que surgissem 60 aplicativos indicando os horários e as rotas dos veículos, melhorando diretamente a vida dos usuários. E melhor: sem gastos. A experiência trouxe pelo menos uma conclusão para dentro dos corredores oficiais: "A gente precisa mudar o modelo de governança para os governos alcançarem o ritmo de inovação das iniciativas privadas", avaliou o chefe de gabinete da SPTrans, Ciro Biderman, no painel Cidades, Dados Abertos e Transparência, durante o Congresso Internacional Cidades & Transportes.

Biderman trouxe sua experiência paulistana para mediar um debate com outros nomes que estão apostando na inteligência dos dados para tornar as cidades mais inteligentes. Representando o Brasil, estavam presentes Bernardo Ainbinder, que coordena o Lab.Rio (Laboratório de Participação da Prefeitura do Rio de Janeiro), e Gustavo Maia, coofundador do aplicativo Colab. Além deles, a mesa foi composta por Alessandro Saraceni, Gerente de Programas da Transport Systems Catapult, Adam Rae, Chefe de Ciência de Dados da Future Cities Catapult, e Kevin O'Malley, Diretor de Inovação da cidade de Bristol, no Reino Unido.

Entre os participantes, um consenso: a abertura de dados e a transparência têm o potencial de tornar as administrações públicas mais horizontais, num modelo em que todo mundo sai ganhando. "Neste novo modelo de negócios, do tipo ganha-ganha, você permite melhorias nos serviços públicos sem precisar recorrer aos cofres públicos. Ou, em alguns casos, usando muito menos recursos do que se usaria no modelo tradicional de governança", ressaltou o representante da SPTrans.

Para Kevin O'Malley, as cidades são o ambiente perfeito para fazer essas experimentações. "Muitas vezes temos problemas semelhantes nas cidades, mas as soluções variam de um lugar para o outro. Para se chegar à solução exata, é necessário saber as características locais - geográficas, econômicas, sociais", disse, acrescentando que, apesar das especificidades, o compartilhamento de experiências entre diferentes regiões pode alavancar as resoluções. "As cidades são a escala exata para lidar com essas questões".

Um obstáculo nesse caminho de trocas, porém, costuma aparecer nas esferas do poder público. Afinal, historicamente os governos nunca precisaram abrir suas portas para a população: estão acostumados a agir de cima para baixo. “Para desenvolver um ecossistema de dados abertos é preciso uma mudança cultural que não é fácil, porque são organizações muito burocráticas. É a ultima coisa que as autoridades querem fazer, para não se abrir a críticas", apontou O'Malley. Mas segundo ele, o medo não se justifica. "Com dados abertos, as pessoas podem fazer críticas mais embasadas e sugerir soluções adequadas".

Kevin O´Malley: Com dados abertos, as pessoas podem fazer críticas embasadas. (Foto: Benoit Colin/WRI Brasil Cidades Sustentáveis) Kevin O´Malley: Com dados abertos, as pessoas podem fazer críticas embasadas. (Foto: Benoit Colin/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

É por isso que Bernardo Ainbinder, do Lab.Rio, defende a abertura irrestrita dos dados do poder público. "Informação é poder. É preciso mudar o paradigma cultural que prevalece no setor público: temos de mostrar que existe valor na abertura de informações. Elas têm que estar disponíveis, e os governos não vão ficar vulneráveis por causa disso", afirmou. Para ele, esse processo é parte de uma transformação que faz das cidades uma construção coletiva. "Temos que começar a ouvir os cidadãos, que são de fato quem usa os serviços públicos, que veem onde estão os problemas. Eles não deveriam ser agentes passivos, mas ativos".

Adam Rae, da Future Cities Catapult, também acredita na gestão colaborativa, mas é mais cauteloso sobre a abertura de dados. Para ele, é preciso ter regras, para segurança da própria população. "Para ter inovações nas cidades, devemos ter uma plataforma seletiva e cuidadosa no sentido de liberar um conjunto de dados, pois isso pode ser perigoso, pode afetar a vida das pessoas", pontuou. "Nossa tendência é pensar que as autoridades são ruins e sonegam informações. Mas eles também estão nos defendendo, de alguma maneira".

Alessandro Saraceni, da Transport Systems Catapult, concorda. Mas diz que dá para conciliar cautela e transparência. "Podemos melhorar a mobilidade e a infraestrutura das cidades de uma forma conectada, inteligente, adicionando dados. Mas não necessariamente invadindo a vida das pessoas. Muitas coisas podem ser feitas sem coletar dados pessoais", frisou. Como exemplo, disse que os usuários podem saber se um ônibus está lotado sem precisar dos nomes e rotas dos passageiros que estão viajando nele.

Foi apostando nesse equilíbrio entre público e privado que Gustavo Maia criou o Colab, um aplicativo que conecta as esferas de poder e os habitantes das cidades. Tanto de um lado quanto de outro, a experiência tem dado muito certo. "Existe um vale imenso entre o que as pessoas querem, especialmente no Brasil, e o que o governo está fornecendo. Enxergamos esse abismo e tentamos construir uma ponte", explicou.

Por meio do Colab, os cidadãos propõem melhorias, avaliam serviços públicos e as autoridades respondem. "As pessoas criam dados de forma colaborativa. É um sistema em que as políticas públicas são construídas com base no que os cidadãos apontam", disse. "O desafio é esse: conseguir alcançar um sistema de desenvolvimento de dados para crescermos e nos transformarmos em cidades melhores e mais bonitas no futuro", resumiu Kevin O'Malley. "E tudo isso tem a ver com dados abertos".

Bernardo Ainbinder: Informação é poder. (Foto: Benoit Colin/WRI Brasil Cidades Sustentáveis) Bernardo Ainbinder: Informação é poder. (Foto: Benoit Colin/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

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