Mobilidade corporativa: o exemplo da Cidade Administrativa do Governo de Minas Gerais

Para otimizar o uso da infraestrutura e da oferta de transporte disponível, cidades começam a aplicar novas soluções - uma delas é a gestão de demanda de viagens (GDV).

28/08/2015

Por décadas e, em alguns casos, ainda hoje, encontra-se na construção de viadutos, duplicação de avenidas e alargamento de ruas a tentativa de resolver o problema dos congestionamentos nos centros urbanos. Tal “solução”, contudo, acabou por mostrar-se obsoleta e ineficaz, na medida em que mais espaço para os carros invariavelmente atrai mais carros. Hoje, para otimizar o uso da infraestrutura e da oferta de transporte disponível, bem como para equilibrar a distribuição do espaço, cidades começam a aplicar novos modelos e soluções. Uma delas é a gestão de demanda de viagens (GDV), termo originado do inglês travel demand management, assunto que será debatido no Congresso Internacional Cidades & Transportes, em setembro, no Rio de Janeiro.

A GDV busca racionalizar o uso do automóvel por meio de medidas de incentivo ao transporte coletivo e não motorizando. Essas medidas podem ser aplicadas por empresas e cidades a fim de qualificar a mobilidade local, e, no Brasil, começam a despontar alguns exemplos inspiradores – caso da Cidade Administrativa do Governo de Minas Gerais, em Belo Horizonte, que atualmente trabalha para implantar um plano de mobilidade corporativa.

Inaugurada em 2010, a nova sede do governo mineiro abriga o Palácio Tiradentes, prédios de secretarias de estado, os edifícios Minas e Gerais, um centro de convivência e o Auditório Presidente Juscelino Kubitschek, além de unidades de apoio para equipamentos. O complexo possui cerca de 270 mil metros quadrados de área construída e é o destino diário de pelo menos 17 mil funcionários – mas está localizado a 20 quilômetros do centro de Belo Horizonte.

Foto: Osvaldo Afonso/Imprensa-MG Foto: Osvaldo Afonso/Imprensa-MG A transferência para o novo endereço, conforme conta Renato Ribeiro, Subsecretário de Regulação de Transportes de Minas Gerais, “causou mudanças para a maioria dos servidores, aumentando o tempo e o custo de seus deslocamentos”. Diante das novas circunstâncias, tornou-se necessário repensar a organização do espaço e a dinâmica de deslocamento dos funcionários. Com o apoio técnico do WRI Brasil | EMBARQ Brasil, a Cidade Administrativa está trabalhando no desenvolvimento de seu plano de mobilidade corporativa, que deve contemplar incentivos para promover o uso mais racional do carro entre os servidores.

Como primeiro passo do trabalho, foi definido o comitê gestor do plano, composto por membros das secretarias de transportes e obras públicas (SETOP) e de planejamento e gestão (SEPLAG). Na visão de Ribeiro, a implementação do plano na Cidade Administrativa, além de configurar um novo modelo de gestão da mobilidade, trará impactos positivos para toda a região: “Os planos de mobilidade corporativa são ferramentas importantes para melhorar a mobilidade em escala local, mas acabam refletindo em melhoras para toda a região no entorno. Como responsável pela gestão da mobilidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte, a SETOP apoia a implementação dessas medidas”.

Definidos os atores envolvidos na elaboração, um dos pontos fundamentais para o sucesso da implementação de um projeto de mobilidade corporativa é o engajamento tanto de funcionários quanto de gestores. Ao perceber o comprometimento das diretorias, por exemplo, as pessoas sentem-se encorajadas a mudar também os próprios hábitos. Grasielle Esposito, Intendente da Cidade Administrativa de Minas Gerais e uma das palestrantes da sessão de GDV do Congresso, considera o plano de mobilidade corporativa essencial para promover a humanização da CA: “O projeto faz parte de um plano de humanização da Cidade Administrativa, que agora passa a ser uma prioridade da Intendência. Esse processo envolve, entre outros fatores, a melhoria no acesso e nas condições de sustentabilidade tanto do complexo quanto de seus serviços – e a mobilidade corporativa assume um papel central, uma vez que está diretamente relacionada com a melhora da qualidade de vida dos servidores”.

Photo by Osvaldo Afonso/Imprensa-MG Photo by Osvaldo Afonso/Imprensa-MG

Para despertar o engajamento entre as pessoas e garantir que a implantação do projeto seja bem sucedida, os responsáveis pelo desenvolvimento do plano circularam entre os servidores o questionário de GDV desenvolvido pela equipe do WRI Brasil | EMBARQ Brasil. O documento reúne uma série de questões para apurar o padrão de deslocamento das pessoas que trabalham no local, incluindo, entre outros tópicos, qual o meio de transporte mais utilizado, o tempo gasto nos trajetos, se há flexibilidade no horário de trabalho e quais incentivos as levariam a utilizar meios de transporte mais sustentáveis e deixar os carros em casa.

O questionário obteve o mais alto índice de respostas entre as pesquisas já aplicadas na CA - quatro mil - , indicando que a mobilidade é uma questão importante e mostrando o interesse das pessoas em fazer as mudanças necessárias. A partir do levantamento das respostas da pesquisa, será possível traçar um panorama preciso do padrão de deslocamento dos funcionários, mapear as necessidades e, dessa forma, implementar as soluções mais adequadas ao contexto local. “Trata-se de uma solução que beneficia empresas, funcionários e toda a coletividade, aumentando as alternativas de transporte e reduzindo os congestionamentos e a poluição. O plano de mobilidade da Cidade Administrativa, além de trazer benefícios aos funcionários, é um exemplo das políticas que o governo quer para a Região Metropolitana de Belo Horizonte”, afirma Ribeiro.

 

Direção inteligente para a mobilidade

As estratégias de GDV trazem impactos positivos diretos para os funcionários, na medida em que ajudam a reduzir o tempo gasto nos deslocamentos, a melhorar a qualidade de vida e a economizar tempo e dinheiro. Em paralelo, as cidades também são beneficiadas – pela redução dos congestionamentos e dos índices de emissões e pela melhora da mobilidade local.

Incentivos às opções de transporte sustentável, como bicicletários e vestiários para quem opta pela bicicleta, vagas especiais para quem oferece carona, bonificações para quem utiliza o transporte coletivo ou até ônibus fretados para os funcionários são alguns exemplos de medidas que podem despertar a mudança de comportamento e contribuir para reduzir o uso do automóvel como principal meio de transporte.

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A GDV, assim, cria oportunidades concretas para que as cidades façam um uso inteligente da infraestrutura e dos serviços de transportes já existente e gerem circunstâncias mais favoráveis para incentivar as opções sustentáveis de transporte. O exemplo da Cidade Administrativa de Minas Gerais mostra que as organizações começam a se preocupar com a qualidade de vida de seus funcionários não apenas no local de trabalho, mas para além dele, reconhecendo o impacto que as condições de transporte têm na produtividade e na qualidade de vida das pessoas. As medidas de GDV, em suma, têm o potencial de mudar a forma como nos locomovemos, expandindo o horizonte de atuação de empresas e administrações municipais e, dessa forma, contribuindo para que o caminho rumo a cidades mais sustentáveis continue sendo trilhado.

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