Cidades para pessoas: o presente e o futuro da mobilidade

Depois de décadas de desenvolvimento carrocêntrico, cidades de diversas partes do mundo começam a pensar em soluções para promover o desenvolvimento sustentável.

24/07/2015


Foto: Justin Sovich/Flickr Foto: Justin Sovich/Flickr É o final do século XIX. Quando o automóvel surge e começa a ser comercializado, as cidades gradativamente remodelam-se de forma a abrir espaço para a nova promessa de mobilidade que se concretizava com as quatro rodas motorizadas. A possibilidade de se deslocar rapidamente de um ponto a outro era uma conveniência que chegava para facilitar a vida dos que tinham condições de acessar o novo modal. Aos poucos, os carros aumentaram em número e tomaram conta do espaço das ruas e, no geral, das próprias cidades, fazendo crescer com eles a infraestrutura característica das áreas urbanas, que desde então se desenvolveram seguindo um modelo “carrocêntrico”.

O crescimento sem planejamento cria cidades dispersas e aumenta as distâncias, estimulando o uso do carro para percorrê-las e muitas vezes inviabilizando outros modais. Hoje, com a frota de automóveis estimada a atingir a marca de 2,5 bilhões até 2050, a imobilidade nas ruas congestionadas e a fumaça dos escapamentos, cidades de diversas partes do mundo começam a enfrentar o problema e a pensar em soluções para desenvolver ambientes urbanos mais sustentáveis.

Para que essa mudança seja possível, contudo, desafios políticos, econômicos e culturais precisam ser superados. Com o objetivo de debater ações para vencer os obstáculos que ainda entravam a construção de cidades para pessoas, especialistas de diferentes países estarão reunidos, em setembro, no Congresso Internacional Cidades & Transportes. Alexandros Washburn, diretor do Centro para a Resiliência Costeira e Excelência Urbana (CRUX) do Stevens Institute of Technology; Marina Klemensiewicz, secretária de Habitação e Inclusão de Buenos Aires; Ricardo Montezuma, diretor da Fundación Ciudad Humana; Javier Garfio Pacheco, prefeito de Chihuahua (México); e Clarisse Cunha Linke, diretora executiva do ITDP Brasil, participam da sessão “Cidades pensadas para pessoas”, a fim de discutir exemplos bem sucedidos e lições aprendidas por diferentes cidades que já começaram a percorrer esse caminho.

 

Cidades que se transformaram para as pessoas

Caminhar é o modo mais democrático de se locomover e, mais do que isso: é apropriar-se do espaço urbano, perceber a cidade e fazer parte dela. Repensar a mobilidade de forma a priorizar as pessoas e os deslocamentos ativos aos poucos se torna uma diretriz para áreas urbanas em diferentes partes do mundo. Conheça os exemplos de quatro cidades que trabalham para garantir acessibilidade, segurança e conforto aos pedestres em seus caminhos e, assim, avançar rumo a um futuro de cidades pensadas para pessoas.

 

Copenhague, Dinamarca

A capital dinamarquesa é mundialmente famosa pelo uso da bicicleta como meio de transporte – mais da metade da população de Copenhague pedala para o trabalho todos os dias. A cidade também foi vanguarda no movimento de pedestrianização e implementou suas primeiras zonas exclusivas para pedestres já na década de 1960. Hoje, esses espaços estão espalhados pela cidade, e os diferentes modais convivem no espaço urbano. A transformação de Copenhague foi pautada pelo trabalho do arquiteto Jan Ghel, a partir do entendimento de que a priorização do pedestre e do transporte ativo é fundamental para qualificar a mobilidade e construir uma cidade melhor para as pessoas.

 

Helsinque, Finlândia

O plano de Helsinque é criar uma cidade de bairros mais densos, caminháveis e conectados, com prioridade para os modais ativos e coletivos. O objetivo que os deslocamentos cotidianos sejam viáveis a pé ou de bicicleta e a posse de um carro se torne desnecessária. Para isso, um aplicativo em fase de testes permite que as pessoas “encomendem” na hora um táxi ou uma bicicleta do programa de compartilhamento local ou encontrem as linhas de ônibus e trem mais próximas. A lógica é: quanto mais pessoas na cidade, menos carros serão permitidos nas ruas.

 

Bogotá, Colômbia

A transformação de Bogotá foi liderada pelo ex-prefeito Enrique Peñalosa, que, ao longo de seus anos de gestão, trabalhou para mudar a cara da cidade e fazer da capital colombiana um exemplo de priorização das pessoas no ambiente urbano. Bogotá, hoje, conta com 376 quilômetros de ciclovias, ruas arborizadas, parque e espaços públicos revitalizados, programa habitacional, milhares de metros quadrados de calçadas recuperadas e fortes políticas de gestão de demanda de viagens, além da restrição de estacionamentos e veículos nas ruas. Tudo isso faz com que a cidade ainda seja reconhecida mundialmente pela inovação em mobilidade urbana e justiça social.

 

Paris, França

No centro da capital francesa, não moradores já não podem circular de carro nos finais de semana, e a tendência é que a medida passe a valer para o resto da semana. Ao longo dos últimos anos, vem implementando diversas medidas para estimular o uso dos modais ativos e sustentáveis e reduzir os congestionamentos e emissões na cidade. A meta da prefeita Anne Hidalgo é dobrar o número de ciclovias até 2020, acabar com os carros a diesel e reservar algumas vias apenas para modelos elétricos ou de baixa emissão. Os resultados, aos poucos, começam a aparecer: de 2001 para cá, o índice de parisienses que não possui um veículo individual passou de 40% para 60%. Atualmente, 32% dos deslocamentos cotidianos são feitos a pé e a cidade conta com pelo menos 560 quilômetros de Zonas 30

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