O equilíbrio entre crescimento econômico e o combate às mudanças no clima

Garantir que os espaços urbanos em crescimento sejam economicamente vibrantes e ambientalmente sustentáveis requer uma nova perspectiva de desenvolvimento.

08/07/2015

Por Priscila Pacheco

Foto: Ed Yourdon/Flickr Foto: Ed Yourdon/Flickr As cidades ocupam 2% do território mundial, mas são responsáveis por 70% das emissões de poluentes em todo o mundo. São também elas, as cidades, que devem abrigar 2,5 bilhões de pessoas a mais até 2050. Diante disso, garantir que os espaços urbanos em crescimento sejam economicamente vibrantes e ambientalmente sustentáveis requer uma nova perspectiva de desenvolvimento.

As mudanças climáticas são uma realidade a ser encarada, e as decisões tomadas hoje vão determinar o futuro do sistema climático no mundo: se não houver ação imediata, a temperatura média no planeta pode estar 4°C mais alta até o final deste século, com impactos extremos e potencialmente irreversíveis para a vida terrestre. Mesmo com um cenário preocupante, as cidades têm o potencial de mudar os paradigmas do desenvolvimento ao conciliar crescimento econômico e sustentabilidade.                    

O papel das cidades no combate às mudanças climáticas estará em debate em setembro, no Congresso Internacional Cidades & Transportes, com a participação de Sam Adams, ex-prefeito de Portland (EUA); Rachel Biderman, diretora do WRI Brasil; Nelson Franco, gerente de Mudanças Climáticas da Prefeitura do Rio de Janeiro; e Délio Malheiros, vice-prefeito e Secretário de Meio Ambiente de Belo Horizonte. A discussão ganha o suporte do relatório de 2015 da New Climate Economy, lançado na terça-feira (7) pela Comissão Global de Economia e Clima.

O documento traz um plano de ações globais e mostra que é possível combater as mudanças no clima sem abrir mão do crescimento econômico. Com o título de Seizing the Global Opportunity, o relatório apresenta 10 recomendações que cidades e tomadores de decisão podem adotar para melhorar o clima e o crescimento simultaneamente. 

1. Impulsionar o desenvolvimento de baixo carbono nas cidades

As cidades devem se comprometer a desenvolver e implementar estratégias de desenvolvimento de baixo carbono até 2020, priorizando políticas de investimentos em modais de transporte coletivos, não-motorizados e sustentáveis e o uso de energia renovável. Além disso, devem investir no planejamento urbano sustentável, na medida em que cidades conectadas e compactas crescem com mais força, criam mais empregos e contribuem para diminuir a desigualdade, bem como melhorar a qualidade de vida por meio da redução da poluição e dos congestionamentos. (Saiba mais sobre o Desenvolvimento Urbano Orientado pelo Transporte Sustentável.)

2. Recuperar e proteger as paisagens agrícolas e florestais e melhorar a produtividade na agricultura

Governos, instituições financeiras, investidores e o setor privado devem trabalhar juntos para impulsionar o financiamento do uso sustentável do solo, a fim de alcançar a meta global de acabar com o desmatamento e recuperar pelo menos 500 milhões de hectares de áreas degradadas até 2030.

3. Investir pelo menos US$ 1 trilhão por ano em energia limpa

Para reduzir os custos da energia limpa e catalisar investimentos privados, bancos de desenvolvimento nacionais e multilaterais precisam reforçar sua colaboração com os governos e com o setor privado. Além disso, devem estabelecer seus próprios compromissos, com o objetivo de atingir um total global de investimento de pelo menos 1 trilhão de dólares por ano em eficiência energética até 2030.

4. Elevar os padrões de globais de eficiência energética

O G20, assim como outros países, deve elevar seus padrões de eficiência energética em setores-chave até 2025. O G20 também precisa desenvolver uma plataforma global para alinhar e continuamente melhorar esses padrões.

5. Implementar uma taxação de carbono efetiva

Tanto economias desenvolvidas quanto emergentes devem se comprometer a implantar ou fortalecer a taxação de carbono até 2020, bem como a acabar com os subsídios a combustíveis fósseis. Estabelecer preços de carbono fortes e crescentes são uma medida importante para orientar o consumo e os investimentos e infraestrutura e inovação; os fundos gerados com essa taxação podem ser usados para apoiar famílias de baixa renda ou até mesmo levar à redução de outros impostos.

6. Assegurar que novas infraestruturas sejam climate-smart

Países desenvolvidos e em desenvolvimento precisam adotar alguns princípios chave para assegurar que as metas para o clima e o risco imposto pelas mudanças climáticas sejam levados em consideração no desenvolvimento de políticas e planos nacionais. Esses princípios devem ser incluídos na Iniciativa Global de Infraestrutura do G20 e podem ser usados para guiar estratégias de investimento dos setores público e privado.

7. Estimular a inovação de baixo carbono

Pensando na redução de emissões e no crescimento no período pós 2030, governos de países emergentes e desenvolvidos devem começar a trabalhar juntos, entre si e com o setor privado, a fim de firmar parcerias para desenvolver a pesquisa e o desenvolvimento de tecnologia de baixo carbono.

8. Gerar o crescimento de baixo carbono por meio de ações de empresas e investidores

Todas as grandes empresas devem estabelecer metas de redução de emissões de curto e longo prazo e implementar planos de ações. Os grandes setores industriais devem entrar em acordo a respeito de roteiros de transformação do mercado, em consonância com o processo de “descarbonização” da economia global.

9. Elevar a ambição de reduzir as emissões internacionais nos setores marítimo e de aviação

As emissões provenientes dos setores marítimo e de aviação precisam ser reduzidas – por meio da implementação de medidas e padrões de eficiência para as aeronaves e do estabelecimento de padrões de eficiência dos combustíveis no setor marítimo.

10. Diminuir o uso de hidrofluorocarbonetos (HFCs)

Os hidrofluorocarbonetos, usados como refrigerantes, solventes, na proteção contra incêndios e em espumas isolantes, são os gases de efeito estufa que mais crescem no mundo, em uma taxa de 10% a 15% por ano. Substituir esses gases por alternativas mais verdes gera baixos custos e pode resultar em economia financeira e de energia.

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Na medida em que abrigam parcelas cada vez maiores da população, as cidades são os locais onde a mudança deve acontecer. Ao adotar um modelo de planejamento 3C – conectado, compacto e coordenado –, os centros urbanos têm a oportunidade de garantir o desenvolvimento econômico sustentável e, ao mesmo tempo, contribuir para amenizar os efeitos das mudanças climáticas.

Felipe Calderón, ex-presidente do México e presidente da Comissão Global de Economia Clima, em entrevista ao TheCityFix, enfatiza a necessidade de repesarmos o crescimento urbano como forma de mitigar as mudanças no clima: “Precisamos construir nova infraestrutura urbana e precisamos fazer isso de forma a criar cidades mais compactas e bem conectadas. A maneira com que construímos nossas cidades e sistemas de transporte vai determinar seu desempenho econômico, a qualidade de vida de quem vive nelas e a quantidade de emissões de gases de efeito estufa ao longo das próximas décadas”.

 

 

 

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