Sam Adams: “Trabalhamos duro para ter certeza de que estávamos fazendo o bem para o ambiente e para a economia"

Ex-prefeito de Portland é presença confirmada na Cúpula de Prefeitos e Congresso Internacional Cidades & Transportes no Rio.

13/07/2015

Sam Adams, ex-prefeito de Portland (EUA) e Diretor da Iniciativa Climática do WRI, acredita que um planejamento estratégico e integrado é o caminho mais eficiente para um futuro sustentável. Foi desse modo que, durante seu mandato de 2009 a 2012, conseguiu implementar o Plano de Ação pelo Clima, alinhado ao plano de desenvolvimento econômico de Portland. Foram definidas metas claras de redução de emissão para cada setor para que se atinja o grande objetivo de reduzir em 80% a emissão de gases de efeito estufa até 2050.

Sam Adams será um dos palestrantes da Cúpula de Prefeitos e do Congresso Internacional Cidades & Transportes, eventos que acontecerão em setembro no Rio de Janeiro.  O especialista irá participar da sessão “Cidades na Nova Economia do Clima” para discutir as possibilidades de desenvolvimento às áreas urbanas baseadas em uma economia de baixo carbono.

Os eventos são organizados por WRI Brasil | EMBARQ Brasil e celebram seus 10 anos de trabalho no país. Confira a programação e faça sua inscrição para o Congresso Internacional Cidades & Transportes.

Leia a entrevista exclusiva com Sam Adams.

 

Quais são os principais desafios que as cidades enfrentam hoje? Como atender as necessidades do século XXI?

Sam Adams - Os desafios-chave que as cidades enfrentam são as demandas por serviços que ultrapassam os recursos necessários para provê-las. As cidades enfrentam desafios crescentes de infraestrutura para mobilidade e transporte público, saneamento, alimentação; os impactos das mudanças climáticas como condições meteorológicas mais severas, secas, enchentes, nevascas e ondas de calor; crescimento da disparidade entre ricos e pobres e a pressão sobre as famílias da classe média.

O encaminhamento destes problemas requer que as cidades adotem uma abordagem integrada na resolução dos problemas e trabalhem para melhorar a infraestrutura local, com o objetivo de proporcionar benefícios múltiplos. Por exemplo, não só tentando estimular mais pessoas a usarem o transporte público, mas também para reduzir a quantidade de viagens como um todo por meio da construção de uma vizinhança completa no entorno das estações de transporte que incluam diversos tipos de renda.

 

Nós todos sabemos que não é fácil fazer mudanças na cidade, visto a grande quantidade de interesses em jogo.  Quais foram as principais forças que você teve que enfrentar? Como você se saiu?

SA - Eu fui prefeito durante a recessão. A primeira parte do mandato foi de recessão econômica em que vivemos uma perda de postos de trabalho significativa, com aumento de pessoas desabrigadas e cortes orçamentários. A primeira tarefa foi tentar encontrar recursos de forma criativa e mais econômica para prestar assistência àqueles que estavam enfrentando os piores impactos da recessão econômica. Olhei não só para as oportunidades dentro do governo da cidade para ser mais eficiente e eficaz, mas também para todos os outros governos que trabalhavam com o governo de Portland, para colocá-los juntos para trabalhar de uma forma mais integrada e estratégica na prestação de serviços públicos.

 

Você poderia dar um exemplo de ação bem-sucedida relacionada ao plano estratégico?

SA - Quando fui eleito, percebi que o planejamento e orçamento dos transportes não estavam coordenados. Então você tinha o VLT e o sistema de ônibus; o sistema regional que não era ofertado pelo governo da cidade, que era responsável pelas ruas, pelo sistema dos carros nas ruas e pelos programas de bicicletas e pedestres. Todos estes programas eram bem intencionados, mas não estavam considerando a oportunidade de melhorar a integração e cooperação. Então passamos a decidir as prioridades sobre uma base anual de investimentos. Muitas vezes tivemos cortes na agência de trânsito e nos programas de incentivo ao uso de bicicletas, sem olhar o impacto desproporcional que estas decisões estavam tendo. Então, colocamos todos juntos para começar a olhar a estratégia anual, avaliando as prioridades de investimento e de orçamento.

 

Portland reduziu suas emissões de gás carbônico em cerca de 11% entre 1990 e 2013. Quais iniciativas que contribuíram para alcançar esta marca?

SA – O Plano de Ação pelo Clima foi aprovado enquanto fui prefeito.  Foi uma construção de esforços para o começo de uma economia de baixo carbono. Estabelecemos uma meta de redução de emissões de GEE para cada setor e, em seguida, tínhamos ações específicas para cada um destes setores.  Então, por exemplo, com o lixo e os aterros sanitários, fizemos uma grande mudança nos serviços que prestamos em relação à reciclagem e compostagem. Passamos de uma coleta de lixo semanal para uma coleta a cada duas semanas. Este programa, depois de alguns anos, reduziu a quantidade de lixo enviado para os aterros em 34%. Durante minha gestão no Conselho da Cidade, construímos 120 km (75 milhas) de ciclovias e fomos capazes de calcular a redução nas emissões de GEE como resultado do aumento do número de viagens feitas com bicicleta na cidade. Fomos capazes de fornecer meios baratos e mais seguros para as pessoas se locomoverem em Portland. Essas iniciativas realmente trazem benefícios na vida real.

 

Portland é considerada uma das cidades mais sustentáveis do mundo. Quais são as características consideradas e quais as dificuldades enfrentadas?

SA - É uma combinação dos nossos resultados com as nossas ações. O fato de termos uma estratégia atualizada regularmente foi um atributo-chave para que Portland fosse reconhecida como uma cidade sustentável: ter uma estratégia, ter métricas e realizar regularmente um inventário de emissões.

Os desafios estão sempre por perto. A percepção de que você tem que escolher entre fazer o bem para o clima e o meio ambiente ou fazer o bem para a economia e o emprego é falsa. Trabalhamos duro para ter certeza de que enquanto estávamos fazendo o bem para o ambiente também fazíamos o bem para a economia. É um desafio que as pessoas ainda pensam que é preciso escolher entre os dois. Além disso, a política nacional não é sempre consistente, nem sempre são favoráveis as ações locais com relação às ações climáticas e aos esforços de baixo carbono. O desafio é a falta de políticas de apoio. Às vezes, a política é obstruída e às vezes é a falta dela que é o desafio.

 

Qual foi a lição mais importante que você aprendeu como prefeito?

SA – Agir sem uma estratégia abrangente é quase sempre mais caro e menos eficaz. Ter uma estratégia ampla e um plano estratégico para sua cidade, um plano de ação climática, uma estratégia de desenvolvimento econômico torna mais fácil seguir e completar uma iniciativa de ação climática. Assim, mantemos um nível elevado e as pessoas reconhecem o valor, de que não estamos apenas fazendo a ação climática pela ação climática: também estamos tentando melhorar a casa das pessoas e sua educação, sua prosperidade e equidade. Uma estratégia e uma abordagem integradas são chave.

 

Qual é a frase ou ideia que você gostaria de espalhar para o mundo?

SA – Planejamento holístico e inteligente, foco nos locais e nas pessoas para uma cidade próspera, educada, saudável e equitativa.

 

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